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Na disputa pelo cliente, aplicativos oferecem até internet gratuita

Empresas de varejo e bancos pagam por navegação para estimular consumo

                                                                                     Por Bruno Rosa (bruno.rosa@oglobo.com.br)

 

   Para aumentar as vendas, empresas estão oferecendo até internet de graça. Tal qual a estratégia usada pelos provedores populares no fim dos anos 1990, que ofereciam conexão gratuita, sites de varejo, bancos, redes de beleza e até um distribuidor de gás decidiram bancar o custo de acesso de seus clientes pelo celular. Em alguns casos, o volume de negócio aumentou até 40% só com a ajuda do incentivo extra. Estudo da empresa de tecnologia Qualcomm aponta que a internet 0800 tem potencial para movimentar por ano no Brasil cerca de 1 milhão de gigabytes. Ou seja, espaço suficiente para armazenar um bilhão de minutos de música.

   Netshoes, Mercado Livre, Privalia, Bradesco, Natura, entre outros, decidiram investir nessa estratégia após constatarem que a maior parte dos brasileiros não usa a internet de forma continuada, já que depende de rede sem fio (Wi-Fi) para navegar pela web. Mas, para ter esse acesso grátis,  o cliente deve baixar o aplicativo dessas empresas no celular. Assim, todos os dados consumidos dentro desse ambiente não serão descontados da franquia dos planos pós-pagos ou de créditos pré-pagos, pois essas companhias pagam diretamente às teles.

   Oren Pinksy, diretor da Qualcomm para América Latina, explica que apesar de o Brasil contar com quase 243 milhões de linhas de celulares em uso, cerca de 67% desse total são pré-pagos, que não usam a internet com a mesma frequência que os clientes pós-pagos. Dessa forma, as empresas passaram a perder receita porque não geram negócios.

   - Já há 20 aplicativos que apostaram em navegação grátis no país, e esse número deve aumentar quatro vezes esse ano.  As empresas fazem um acordo com as teles e pagam pelos dados consumidos por seus clientes nas plataformas - afirma Pinsky, lembrando que cada tele deve ganhar mais de R$ 10 milhões neste primeiro momento com o arranjo.

   Entre os varejistas, a aposta é crescente. A Netshoes, loja on-line de arquivos esportivos, investiu no consumo patrocinado (com clientes de todas as teles) ao perceber que o celular se tornou a primeira porta de entrada dos consumidores no site. Andre Petenussi, diretor de TI da Netshoes, diz que, com a iniciativa, a fatia do celular no acesso total passou de 10% para 46% entre 2014 e 2016: - Essa alta foi puxada pela internet de graça. -

   No Mercado Livre, afirma Daniel Ferian de Aguiar, gerente Sênior de Marketing, em cinco meses, o volume de dados trafegados no site cresceu 40% desde que a companhia fez acordo com Tim e Vivo. Agora, negocia com a Oi e Claro:   - o download do aplicativo aumentou 30%.

 

Neutralidade de Rede em Discussão

    Nos aplicativos da Natura, mais de 180 mil pessoas já usaram a navegação gratuita desde fevereiro. A Privalia, de moda, diz que pretende ampliar os investimentos, pois hoje oferece internet grátis só para clientes da Vivo.

    Os bancos também estão atentos ao movimento. O Santander, que acabou de lançar o serviço, pretende ampliar de 6,9 milhões para 8,7 milhões o total de clientes digitais. O Itaú estuda o assunto. O Bradesco, que passou a oferecer a comodidade há três anos, comemora os resultados da estratégia. - A ideia do serviço partiu porque existe a barreira de custo e de infraestrutura de dados. Passamos de três milhões de clientes para dez milhões de 2014 a março deste ano. São mais de 18,5 milhões de transações por dia - diz Rubia Steiner, gerente de Canais Digitais do Bradesco.

    Mas o uso de internet gratuita reacendeu o debate sobre neutralidade da rede. Há quem defenda que oferecer dados de graça não significa priorizar o acesso a um determinado grupo. Para outros, o acesso sem custo já configura discriminação, ferindo o princípio de que a rede deve ser neutra. - Todos têm de ser tratados da mesma forma. O assunto hoje conta com dois entendimentos. - destaca Daniel Pitanga, do Siqueira Castro.

   Para o advogado Luiz Felipe di Sessa, do Souza Cescon, o Marco Civil da Internet não deixa claro se a cobrança de internet fere a neutralidade: - As empresas dizem que não estão privilegiando o acesso. Mas há quem defenda que oferecer algo de graça já seria uma diferenciação. A prática beneficia o consumidor, mas também pode induzi-lo.

   Para  Pinsky, da Qualcomm, a neutralidade de rede não é ferida, pois não há diferenciação de usuário. Ele diz que o usuário só tem acesso grátis nesses aplicativos se tiver pelo menos R$ 0,01 de crédito. - Se o cliente estiver zerado, a internet grátis não funciona - explica.

 

 

23 Maio 2017

O Globo